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2012,fev

Sofia e o Bicho Papinha

Na categoria Dicas, Gramática, Literatura, Por Wilson R.

Eu, sem chapéu

Olá, meus amigos.

Hoje falarei de mim, para variar um pouco. (eh, eh). Vou usar este espaço para comemorar os seis anos de meu contrato com a Editora Saraiva para a publicação do meu livro infantil “Sofia e o Bicho Papinha”. Lançado pelo selo Atual em 2006, “Sofia e o Bicho Papinha” faz parte da coleção Mindinho e Seu Vizinho e vai, este ano, para sua quinta tiragem, ultrapassando os 7.000 belos livros azuis em mãos infantis por esse nosso Brasilzão de Deus.

Sou particularmente orgulhoso dessa obra por causa de seu objetivo: ajudar na formação dos brasileiros de amanhã, exaltando o valor da amizade e extirpando o preconceito de suas almas pueris. Sete mil exemplares podem não parecer muito para sete anos, mas se levarmos em conta que isso dá mais de 3 por dia e que cada exemplar foi, certamente, lido por mais de uma criança… amigos, isso me dá uma alegria que vocês não imaginam. Ah, mas o mais legal ainda é saber que muitos deles acabam em sebos para serem novamente lidos por outra criança. Muito bom, né?

Enfim, obrigado a editora Saraiva pela oportunidade e confiança e, claro, aos pequenos leitores que repetem (de cor!) a aventura da pequena Sofia, como fizeram no dia em que fui autografar numa escola, aqui em São José dos Campos.

Abraços.

 

 

Você pode imaginar uma amizade entre um filhote da família dos bichos-papões e uma menina? Pois é isso mesmo o que acontece nessa história! Todas as noites Sofia e o Bicho Papinha se encontram no Mundo dos Sonhos e brincam juntos. Porém, um dia se atrapalham e voltam para as casas trocadas. De manhã, mamãe Papona encontra Sofia na cama de Papinha, e dona Vanessa dá de cara com Papinha na cama da menina. O susto é muito grande!
Com sensibilidade e bom humor, Sofia e o Bicho Papinha reafirma ao leitor infantil valores como a amizade e o respeito às diferenças.

 

TEMAS PARA ATIVIDADES
Ética: a tolerância e o respeito às diferenças;
Pluralidade Cultural: a diversidade cultural e social no Brasil e no mundo;
Português: a construção de histórias e crendices populares.

TEMAS TRANSVERSAIS
Ética e Pluralidade Cultural

 

 

 

 

2012,fev

O assunto rápido de hoje nos traz estas duas palavras parônimas: ratificar e retificar. O que significam?

Vamos lá.

Ratificar é validar, reafirmar, dar como autêntico, enquanto retificar origina-se de “tornar reto” e significa acertar, corrigir.

Exemplos:

Sentando-se, ratificou sua intenção de ficar.
(confirmou, validou)

Como não estava de acordo, pediu para retificar a cláusula do contrato.
(corrigir, acertar)

Certinho?

Abraços e até amanhã.

 

 

2012,fev

Fundador do Bar do Escritor – comunidade do Orkut que deu origem ao movimento literário, Giovani Iemini é um escritor agudo e, por vezes, sarcástico. Traz para as linhas fatos do cotidiano, muitas vezes elevados à potência da neurose, oscilando entre o que é, o que deveria e o que não deveria ser. Seu estilo e sua figura remetem-me às criações do rei do underground, Robert Crumb. Contista com tiques de cronista aqui e ali, esse meu amigo é nascido e residente em Brasília/DF, membro da Academia Brasiliense de Letras e um cara bom de copo e de papo.

BIOGRAFIA  - GIOVANI IEMINI
(Antologia Bar do Escritor I)

É escritor, motoqueiro, cachaceiro, peladeiro, leitor voraz, catálogo, historiador, gibizeiro, roqueiro, ex-cabeludo, músico (frustrado), enxadrista, pintor, marido e conhecido nas redondezas como o amigão de todas as horas. Estreou na coletânea Todas as Gerações – o conto brasiliense contemporâneo (2006). Publico livretos do Bar do Escritor e Casos do Mão Branca (2007) e o livro Mão Branca (2009). Participou e organizou as Antologias Bar do Escritor I, II e III, prefaciou o Sonetário Barnasiano e, atualmente, é membro da Academia Brasiliense de Letras.

 

O BURACO DO AZEITE – Giovani Iemini

Giovani versão Falcon

Compraram azeite no primeiro mercado depois de casados. Quando foi usá-lo, Jorge se surpreendeu:
- Você é canhota?
- Não. – A esposa comia salada.
- Então por que furou a lata do azeite ao contrário?
- Contrário?
- Sim, você fez furos nos lados inversos da tampa. – Serviu-se do azeite virando a lata para frente com dificuldade. – Tá vendo? – Trocou a lata de mão. – Com a mão esquerda fica fácil. Os buracos estão do lado contrário.
Ela percebeu a diferença e concordou que a lata serviria melhor aos canhotos. Ele abocanhou satisfeito uma garfada de tomate.
- Não bata o garfo nos dentes. – Pediu Rebeca. – Me causa gastura.
- Desculpe.
Jorge foi à cozinha atrás de azeite para a lentilha. Havia comprado uma nova lata. A grande surpresa foi quando percebeu que já estava com furos. Ao contrário.
- Querida, você furou a lata de azeite ao contrário novamente.
- Foi? – Ela nem se virou. – Sem querer.
- Eu sei. Preste atenção na próxima, por favor.
Ela continuou sem se virar, mas levantou os olhos quando ele levou o garfo à boca.
- Rebeca! – Falou com um tanto de raiva na voz. – O buraco do azeite tá ao contrário!
Ela sustentou o abridor de latas no ar.
- Então por que você não veio fazer os furos? Só sabe reclamar.
- Você não me chamou. Poderia me deixar furar a próxima?
- Claro.
Jorge sentou-se para a janta. O casamento estava horrível, eram distantes, havia uma barreira entre eles. Mesmo que a aparente tranqüilidade do casal sugerisse conforto, no fundo ele achava que estava representando um papel: o de marido desprezado. Ela fazia todas as suas vontades contanto que fossem convenientes, porém quando encasquetava com algo, não havia conversa nem opinião adversa. A dela deveria prevalecer. O buraco do azeite era o exemplo perfeito. Bastou um dia ele pedir para que o buraco fosse do lado inverso da lata para ela incitar o mais íntimo dos confrontos, o da força de vontade. Quem cederia primeiro, ela ou ele? Se ele perdesse a paciência e ao menos gritasse, sabia que ela retornaria com tantas pedras fosse capaz de ter guardado durante os sete anos do casamento. Se ele pedisse mais uma vez que ela atentasse para os furos no azeite, deixaria claro quão ele era bundão, um verdadeiro frouxo nas decisões do casal.
Mas se ela se cansasse de provocá-lo com o azeite, ah, ele venceria. Mas como poderia fazer isso? Nunca fora dado a essas intriguinhas sociais.
Serviu-se de salada e jorrou azeite por cima, com alguma dificuldade, já se acostumara aos buracos ao contrário. Preparou o garfo com alface, cebola, tomate, rúcula e agrião e o levou a boca.
- Chega! – Gritou Rebeca, batendo as mãos na mesa. Talheres voaram. – Não agüento mais! – Apertou os olhos e apontou para Jorge. – Você faz de propósito. Sete anos e você continua me provocando. O que quer? O que ganha com isso? Você é um monstro! – E mergulhou a cabeça nas mãos num pranto sofrido.
- Tá louca, mulher? – Foi a reação de Jorge. – Do que você tá falando?
- Canalha, sádico, desprezível. – Balbuciou.
- Por que, Rebeca, por que?
- O garfo nos dentes. Não bata o garfo nos dentes.

——————-

Abraços.

 

2012,fev

Wakan Tanka – texto sioux

Na categoria Literatura, Por Wilson R.

A cultura dos índios do norte do continente americano, em especial os Sioux, é fascinante. Com uma visão precisa da realidade que os cercava, eles antecipavam os sentimentos ecológicos que hoje parecem estar tão na moda. Alguns costumes trazem uma ética que nos faz pensar na retidão(?) do caminho que seguimos. Um desses costumes é o hábito de todas as mulheres lactentes amamentarem indiscriminadamente todas as crianças da tribo e não apenas seus filhos. Isso simboliza que todos são irmãos e, consequentemente, que todos os anciãos são avós dos jovens. Vem-me à mente o contraste triste com como tratamos nossos semelhantes, em especial os idosos.

Hoje, trago a oração a Wakan Tanka, o Grande Espírito, para que possamos ver como o belo sempre foi usado para homenagear a divindade e como a espiritualidade tem o poder de despertar, nos homens, o sentimento do belo.

Vamos lá.

 

WAKAN TANKA*

Sitting Bull

Grande Espírito,
cuja voz ouço cantar,
cujo alento vivifica o mundo,
escuta-me!

Eu venho em frente a Ti
como um de teus inúmeros filhos.
Olha-me!

Necessito da Tua força e sabedoria!
Permita-me caminhar
olhando a beleza da natureza,
permita que as minhas mãos
honrem sempre as Tuas obras
e que meus ouvidos
escutem a Tua voz.

Faz de mim um sábio
para compreender
aquilo que Tu mostraste ao meu povo:
o ensinamento que Tu escondeste
em cada folha e pedra.

Quero ser forte,
não para ser superior ao meu irmão,
mas para vencer ao meu maior inimigo:
eu mesmo.

Faz com que eu esteja pronto
para chegar a Tua presença
com as mãos limpas, olhos puros,
para que minha alma,
quando se for,
como o sol que se põe,
possa chegar a Ti
sem envergonhar-se.

———————-

Os sioux são o povo do lendário cacique Sitting Bull (Touro Sentado), que, ao lado do chefe de guerra Crazy Horse (Cavalo Louco), comandou uma coalizão de sioux e cheroquis em fins do século XIX, atacando e dizimando a Sétima Cavalaria na batalha de Little Bighorn. Nela, morreu o também lendário General Custer. Anos depois, a Sétima Cavalaria vingou seu general, matando 290** índios desarmados que já haviam se entregado, entre eles 200 mulheres e crianças. Seus cadáveres podiam ser encontrados a quilômetros de distância de Wounded Knee, origem da matança. Philip Sheridan, então general da Sétima Cavalaria, é autor da triste frase “Índio bom é índio morto”.

Pois é… abraços.

(*) Organizei a oração em estrofes, por ver poesia nas palavras. Em todos os lugares que a li, estava em prosa.

(**) O número de mortos varia de 150 a 500, depende da fonte. Optei pelo número que mais aparece nas reportagens.

2012,fev

pequenez / pequinês

Na categoria Dicas, Gramática, Literatura, Por Wilson R.

Duas palavrinhas parecidas, mas com significados bastante diferentes.

Vamos lá.

A palavra “pequenez” representa a qualidade de pequeno. Também usamos para definir algo de pouca elevação moral ou intelectual.

Exemplos:

A pequenez dos lilases dá-lhes delicadeza.
Políticos corruptos têm pequenez de moral.
Seus atos são de uma pequenez incrível.

Já a palavra “pequinês” designa algo ou alguém originado na cidade de Pequim, na China. No Brasil, conhecemos o termo principalmente quando nos referimos àquele cãozinho peludo e invocado que quase não vemos mais por aí. Mas também pode se referir a outros animais, coisas e, claro, pessoas que nasceram naquela cidade.

Exemplos:

Quando criança, tinha um cão pequinês.
O pato pequinês está ameaçado de extinção.
A porcelana pequinesa é delicada.

Certinho? Pequenez, pequeno; pequinês, de Pequim. Para lembrar: a pequenez é uma característica do cãozinho pequinês.

Abraços e até segunda-feira.

 

 

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2012,fev

Peço desculpas aos meus leitores pelo dias de ausência. Não, não parei de escrever, não me mandaram embora do site nem foi praga de ninguém (eh, eh). Apenas alguns problemas no relacionamento do WordPress com o site. Nada que o pessoal da manutenção não resolvesse. Falando em manutenção…

…vamos lá.

Nossa quinta rapidinha de hoje é rápida mesmo: a palavra eletricista é escrita com “tri”, pois vem de eletricidade. Vemos por aí várias vezes escrita da forma errada “eletrEcista”. Talvez o fato de em muitas palavras pronunciarmos o “e” como “i” seja a causa da confusão, pensamos logo: “Ora, falamos com ‘i’ mas é com ‘e’”. Neste caso, nada disso! Lembrem-se: elétrico, eletricidade – eletricista.

Abraços.

 

2012,fev

Em virtude dos últimos acontecimentos em nossa cidade, peço licença a meus leitores para expressar minha opinião.

Ontem, 02/02/2012, presenciei a manifestação intitulada “Pinheirinho”, organizada por diversos partidos e associações de todas as partes do Brasil e, segundo os alto-falantes, do mundo. Ouvi falar de poucas entidades joseenses, mas acho que tinha bastante gente de São José dos Campos lá, sim. Eu mesmo vi alguns amigos que admiro e respeito, não obstante nossas visões divergentes em determinados assuntos.

Tudo seria maravilhoso se os organizadores estivessem preocupados com o Pinheirinho, mas a verdade nua e crua é que NENHUM DELES mostrou-se preocupado com esse assunto. Tudo o que vi foi o digladiar feroz de bestas partidárias, simulando uma dicotomia que, se um dia existiu, a realidade política atual de nosso país está aí para autenticar o falecimento.

PT & Cia. acusam os poderes executivos Estadual e Municipal de algo cometido pelo Judiciário, enquanto os tucanos, a exemplo do que seu principal antagonista sempre fez, simplesmente libera uma verba para que os expulsos paguem aluguel. Ora, alugar como? Como as famílias vão encontrar fiadores, como vão provar rendimentos, como vão dar número de conta bancária? O assunto é tratado com irresponsabilidade pelo PT e com incompetência pelo PSDB, pois ambos funcionam na mesma batida. Basta notar que, se nos escalões federais o PT mostrou-se corrupto como todos, o PSDB de lá nem faz oposição, afinal, está contente com seu quinhão nas maracutaias, tão comuns hoje no Planalto que os noticiários sequer dão muita importância.

E é isso: para o Estado e o Município, os moradores do Pinheirinho valem R$ 500,00 por mês; para o Governo Federal, não valem nada. Não sei o que é pior.

E, no meio disso tudo, está o povo joseense, que trabalha, paga aluguel, impostos, água, luz e não recebe auxílio nenhum; no meio disso tudo, está o trabalhador joseense, que ingressou nos programas habitacionais seguindo tudo certinho, e hoje se vê preterido sem ao menos ser consultado; no meio disso tudo, meus amigos, está o JOSEENSE, que sempre recebeu seus irmãos de todo o Brasil de braços abertos, e hoje tem que fechar seus comércios para não ser saqueado por criminosos que acompanham as manifestações (como houve durante a desocupação) – sim, porque, para mim, quem destrói propriedades e saqueia comércios é um criminoso.

Gostaria mesmo que as lideranças políticas esquecessem suas oníricas diferenças e resolvessem o problema, abandonando suas rusgas mesquinhas, desnecessárias e retrógradas, e pensando no bem de quem precisa, de quem merece: os realmente necessitados do Pinheirinho. E, claro, o povo joseense.

Gostaria mesmo que o militantes políticos tivessem CORAGEM para cobrar seus próprios partidos antes de atacar os outros, que parassem de trabalhar cegamente para PT, PSDB, PSOL ou outro qualquer e fizessem eles trabalharem para nós. Para nós, o povo joseense.

Gostaria, enfim, que as lideranças “estrangeiras” que presenciei ontem na praça Afonso Pena trouxessem propostas, soluções e recursos, e não apenas viessem dizer o que devemos fazer em NOSSA cidade, como se na deles não houvesse nenhum problema, como se em São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas etc. tudo estivesse uma maravilha e eles tivessem algum exemplo para dar a nós – a NÓS, o povo joseense.

Abraços.

 

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2012,fev

Mais uma quinta rapidinha.  Vamos lá.

A palavra “dizimar” seguiu um rumo interessante. Hoje, geralmente é usada para dar ideia de destruir, arrasar – e, claro, isso está correto. O interessante é que a palavra, originalmente, significa “matar um (soldado) em cada dez”, ou seja, tirar um décimo. Como o dízimo, que representa um décimo de determinado valor.

Exemplo: (…) resistia bravamente, dizimando a tropa nas emboscadas preparadas nas matas” (A. S. de Mendonça Júnior, O Anel de Brilhante e Outras Estórias, p. 14).

Como podemos ver, dizimar passou a expressar a ideia de devastar completamente, mas o dízimo continua sendo apenas um décimo – ou seja, não vai dizimar seus recebimentos.

Abraços.

 

 

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2012,fev

traz / trás

Na categoria Sem categoria, Por Wilson R.

Hoje, um assunto rapidinho, já que meu provedor está meio estranho e vezes funciona, vezes irrita. Falaremos de duas palavras que são confundidas frequentemente, mas cujos significados são diferentes.

Vamos lá.

A palavra “trás”, com “s” e acento agudo no “a”, significa o mesmo que atrás, detrás, em seguida, após.

Exemplos:

Pela frente, bom amigo. Por trás, um safado.

“…uma aurora semelhante à de ontem e à de amanhã, todos os dias iguais, ano trás ano” (Maria Julieta Drummond de Andrade, Um Buquê de Alcachofras, p. 124).

Já a palavra “traz”, escrita com “z” e (vejam bem!) sem acento, vem do verbo trazer e (entre vários significados) têm o sentido de conduzir ou transportar algo de um lugar para outro.

Exemplos:

Cunhã, traz a minha chinela – (bordão da personagem Painho, de Chico Anísio).
Todo dia Maria traz meu almoço.

E por hoje é só.

Abraços.

O Aurélio apresenta 22 aplicações diferentes para o verbo trazer, diversas como em “Trazia uniforme impecavelmente limpo” e “A manhã traz lembranças”.

 

 

 

 

 
2012,jan

Nossa terça barnasiana de hoje nos traz Paulinho Dhi Andrade. Tive o prazer de conhecer esse escritor num dos saraus promovemos em São Paulo, mais precisamente na mágica Vila Madalena. Raridade entre os integrantes do movimento, Paulinho limita-se a ingerir quantias moderadas de água tônica enquanto seus confrades entopem-se de cervejas, cachaças e bloody marys.

Dono de uma narrativa envolvente, Paulinho Dhi Andrade transborda sutilmente sentimentos fortes em suas linhas, repletas de um carinho por vezes irônico com pessoas e entidades. Invoca memórias de parentes e amigos, fixa visões pessoais da vida, da psique, da moral, resgatando fatos com habilidade tal que o leitor se surpreende sentindo uma atmosfera estranhamente verossímil em cenas improváveis.

É onírico, entremeado com lampejos de despertar, e sua visão de vida e coisas causa espanto. Quem tem o prazer de conhecê-lo pessoalmente sabe o homem forte que está por traz do seu jeito sereno, gentil e fraterno.

Organizador do projeto Mulheres Nuas, de grande sucesso e repercussão em São Paulo (já foi exposto nas estações do metrô), esse meu amigo que tanto admiro está entre os grandes nomes de nossa literatura contemporânea.

BIOGRAFIA

Paulo César B. Bomfim nasceu em São Paulo/SP, em 23 de março de 1968. Aos 15 anos, descobriu a literatura através do livro “Coração de Onça” – um prêmio que recebera por ser o aluno que mais frequentara a biblioteca em menos de quatro meses.  Em 1997, participou da VII Antologia Palavras de Poeta – Physis Editora. Em 1999, lançou seu primeiro livro de contos, “A Tragédia dos Mentirosos”. Participou da Primeira Antologia do Bar do Escritor e é criador, organizador e promotor do Projeto Mulheres Nuas.

CECÍLIA, MÃE DE DEUS
(Paulinho Dhi Andrade)

Se eu tivesse o poder da ressurreição
traria Cecília de volta à vida.
Me apresentaria à ela e em seguida ela a Cristo,
que viria antes em forma de menino.
Andaríamos os três de mãos dadas.
De um lado Cristo, do outro eu,
no meio Cecília amparando os dois.
Um, puro amor. Outro, só paixão.

Ela dormiria comigo, Cristo seria nossa proteção.
Porque Cristo nunca dorme.
Ao amanhecer Cecília daria leite a ele.
Os seios de Cecília são brancos.

Depois eu levaria Cristo para passear.
Cecília procuraria uma escola para ele estudar.
Menino inteligente, ensinaria os professores
seria expulso da escola assim como todo gênio é.
Eu fingiria estar zangado com ele.
Cecília lhe daria conselhos, mas menino é por natureza
teimoso.
Ele continuaria acreditando em seus ideais.
Nada mais justo, então adulto seria professor.
Eu e Cecília, olhando para aquele homem bonito,
sentiríamos saudades de nosso menino.
Um filho que nascera antes da mãe.
Com certeza nascera de uma mãe virgem.

Mais tarde, Cecília choraria ao vê-lo na cruz.
De um lado, eu, do outro, seu amante.
Seria preciso Cecília ter um amante.
Para que eu me revoltasse e tentasse cometer um crime.
Assim eu seria crucificado com Cristo.
O amante de Cecília não seria apedrejado,
morreria na cruz também.

Cecília teria que viver só.
Seria a primeira mulher a conhecer a depressão.
Triste, ela escreveria poemas.
Seus livros de poesias seriam lidos por muita gente.
Depois ela morreria sem nunca ter sido contente…

Se eu tivesse o poder da ressurreição,
eu não traria Cecília de volta à vida.
Pois eu sentiria ciúmes ao ver Cecília
colocar os seios na boca de meu filho.
Também não suportaria saber dos seus
poemas de amor ao seu amante.

Eu poderia ser até crucificado, mas envenenado antes.
Depois, posto morto na cruz, pois não
suporto ver sangue.
Poderiam colocar-me vivo no calvário,
meus olhos seriam vazados antes.
Pois já disse, não suporto ver sangue.

Talvez Cecília não arrumasse um amante.
Então estaríamos diante de nosso filho na cruz.
Ele estaria só, a não ser que se prestassem a
acompanhá-lo dois coadjuvantes.
Eu estaria olhando para o chão.
Cecília unindo as mãos.
Os apóstolos de nosso filho estariam esperando a
hora exata para se fazer cumprir a palavra da ressurreição,
sequestrando seu corpo enquanto Cecília caísse em meditação.

Depois viria a guerra e a perseguição.
Homens de coragem se esconderiam
atrás de seus filhos e mulheres,
mas morreriam assim mesmo.
Cecília nunca mais faria amor comigo,
pois sentiria medo de dar à luz outro Cristo.

Se eu tivesse o poder da ressurreição,
ressuscitaria palavras mortas.
Comporia uma oração ao meu filho e a escreveria
em todas as portas.
Não ressuscitaria Cecília,
pois ela nunca esteve morta…

————————————

Que coisa, não? Um dos textos mais lindos que já li.

Abraços.

 

O conteúdo aqui apresentado é de única e exclusiva responsabilidade civil e penal do autor que assina o presente Blog.
Todas as opiniões aqui apresentadas são de inteira responsabilidade de seus autores, e não representam as opiniões da Rádio Piratininga.