Nossa terça barnasiana de hoje nos traz Paulinho Dhi Andrade. Tive o prazer de conhecer esse escritor num dos saraus promovemos em São Paulo, mais precisamente na mágica Vila Madalena. Raridade entre os integrantes do movimento, Paulinho limita-se a ingerir quantias moderadas de água tônica enquanto seus confrades entopem-se de cervejas, cachaças e bloody marys.
Dono de uma narrativa envolvente, Paulinho Dhi Andrade transborda sutilmente sentimentos fortes em suas linhas, repletas de um carinho por vezes irônico com pessoas e entidades. Invoca memórias de parentes e amigos, fixa visões pessoais da vida, da psique, da moral, resgatando fatos com habilidade tal que o leitor se surpreende sentindo uma atmosfera estranhamente verossímil em cenas improváveis.
É onírico, entremeado com lampejos de despertar, e sua visão de vida e coisas causa espanto. Quem tem o prazer de conhecê-lo pessoalmente sabe o homem forte que está por traz do seu jeito sereno, gentil e fraterno.
Organizador do projeto Mulheres Nuas, de grande sucesso e repercussão em São Paulo (já foi exposto nas estações do metrô), esse meu amigo que tanto admiro está entre os grandes nomes de nossa literatura contemporânea.
BIOGRAFIA
Paulo César B. Bomfim nasceu em São Paulo/SP, em 23 de março de 1968. Aos 15 anos, descobriu a literatura através do livro “Coração de Onça” – um prêmio que recebera por ser o aluno que mais frequentara a biblioteca em menos de quatro meses. Em 1997, participou da VII Antologia Palavras de Poeta – Physis Editora. Em 1999, lançou seu primeiro livro de contos, “A Tragédia dos Mentirosos”. Participou da Primeira Antologia do Bar do Escritor e é criador, organizador e promotor do Projeto Mulheres Nuas.
CECÍLIA, MÃE DE DEUS
(Paulinho Dhi Andrade)
Se eu tivesse o poder da ressurreição
traria Cecília de volta à vida.
Me apresentaria à ela e em seguida ela a Cristo,
que viria antes em forma de menino.
Andaríamos os três de mãos dadas.
De um lado Cristo, do outro eu,
no meio Cecília amparando os dois.
Um, puro amor. Outro, só paixão.
Ela dormiria comigo, Cristo seria nossa proteção.
Porque Cristo nunca dorme.
Ao amanhecer Cecília daria leite a ele.
Os seios de Cecília são brancos.
Depois eu levaria Cristo para passear.
Cecília procuraria uma escola para ele estudar.
Menino inteligente, ensinaria os professores
seria expulso da escola assim como todo gênio é.
Eu fingiria estar zangado com ele.
Cecília lhe daria conselhos, mas menino é por natureza
teimoso.
Ele continuaria acreditando em seus ideais.
Nada mais justo, então adulto seria professor.
Eu e Cecília, olhando para aquele homem bonito,
sentiríamos saudades de nosso menino.
Um filho que nascera antes da mãe.
Com certeza nascera de uma mãe virgem.
Mais tarde, Cecília choraria ao vê-lo na cruz.
De um lado, eu, do outro, seu amante.
Seria preciso Cecília ter um amante.
Para que eu me revoltasse e tentasse cometer um crime.
Assim eu seria crucificado com Cristo.
O amante de Cecília não seria apedrejado,
morreria na cruz também.
Cecília teria que viver só.
Seria a primeira mulher a conhecer a depressão.
Triste, ela escreveria poemas.
Seus livros de poesias seriam lidos por muita gente.
Depois ela morreria sem nunca ter sido contente…
Se eu tivesse o poder da ressurreição,
eu não traria Cecília de volta à vida.
Pois eu sentiria ciúmes ao ver Cecília
colocar os seios na boca de meu filho.
Também não suportaria saber dos seus
poemas de amor ao seu amante.
Eu poderia ser até crucificado, mas envenenado antes.
Depois, posto morto na cruz, pois não
suporto ver sangue.
Poderiam colocar-me vivo no calvário,
meus olhos seriam vazados antes.
Pois já disse, não suporto ver sangue.
Talvez Cecília não arrumasse um amante.
Então estaríamos diante de nosso filho na cruz.
Ele estaria só, a não ser que se prestassem a
acompanhá-lo dois coadjuvantes.
Eu estaria olhando para o chão.
Cecília unindo as mãos.
Os apóstolos de nosso filho estariam esperando a
hora exata para se fazer cumprir a palavra da ressurreição,
sequestrando seu corpo enquanto Cecília caísse em meditação.
Depois viria a guerra e a perseguição.
Homens de coragem se esconderiam
atrás de seus filhos e mulheres,
mas morreriam assim mesmo.
Cecília nunca mais faria amor comigo,
pois sentiria medo de dar à luz outro Cristo.
Se eu tivesse o poder da ressurreição,
ressuscitaria palavras mortas.
Comporia uma oração ao meu filho e a escreveria
em todas as portas.
Não ressuscitaria Cecília,
pois ela nunca esteve morta…
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Que coisa, não? Um dos textos mais lindos que já li.
Abraços.