O CORAÇÃO DA CIDADE
O planalto que constitui o local que deu origem a São José dos Campos, foi o coração da cidade, desde seus inícios com a fazenda de gado administrada por padres jesuítas, doações de sesmarias, constituição da Aldeia e Vila, até os anos 1970.
AS RUAS PRINCIPAIS
Na Rua de Trás (Avenida São José), Rua Direita (Rua XV de Novembro), Rua do Fogo (Rua 7 de Setembro), Rua do Mercado (Rua Siqueira Campos), Rua do Cemitério(ruas Antonio Saes e Francisco Rafael), Jardim da Preguiça (Praça Cônego Lima), Rua do Teatro (Rua Sebastião Hummel), Largo da Cadeia (Praça Afonso Pena) e no Largo da Matriz (Praça Padre João Guimarães), sempre estiveram, até então, os melhores equipamentos públicos, o poder público nos seus 3 níveis, as escolas, os médicos, os dentistas, o comércio, os serviços e pequenas indústrias (Malharia Alzira, que se instalou na Rua 7 de Setembro, nº 42, na segunda metade dos anos 1920), os bancos, o Theatro, que nos seus tempos iniciais vivia a transição teatro/cinema (prédio na esquina da Rua XV de Novembro com a Rua Sebastião Hummel, que viria a ser ocupado pela Prefeitura e Câmara Municipal, e depois pela Biblioteca Pública Cassiano Ricardo), o hospital, o cemitério, sedes sociais da Associação Esportiva São José, Tenis Clube de São José dos Campos e Esporte Clube São José, o ponto de ônibus urbanos na Praça da Matriz e o ponto de ônibus intermunicipal que ficava, inicialmente, em frente ao Bar XV, próximo à Praça da Matriz e depois na Avenida São José, próximo à igreja.
CORSOS E QUERMESSES
Principalmente na Praça Afonso Pena, Rua XV de Novembro e Praça da Matriz, aconteciam os desfiles das datas cívicas, os de aberturas de jogos regionais, os corsos, depois os desfiles de blocos carnavalescos, as quermesses e os comícios políticos.
O FOOTING
Costume antigo que acontecia nos finais de semana, o footing era o percurso pela Rua XV de Novembro, entre a Rua Rubião Junior e a Praça da Matriz e se realizava logo após a saída do cinema (Cine Paratodos, na Rua Cel Monteiro, e depois Cine Palácio, na Praça Afonso Pena).
CENTRO DE COMPRAS
O mercado municipal era um grande centro de compras para onde acorriam moradores da cidade e da zona rural, principalmente aos domingos.
A Padaria Vulcão, na Rua 7 de Setembro, ao lado do mercado municipal, era a mais renomada da cidade.
A Casa Diamante, na Rua XV de Novembro, próximo à Praça Cônego Lima, tinha um comércio generalizado de bens e era uma loja conceituada, somando-se a outras lojas na mesma rua, e às lojas da Rua Siqueira Campos, muitas de propriedade de libaneses, como a Casa Confiança, a Casa São Jorge, e como eram tempos em que o homem ainda usava chapéu, havia a Chapelaria Carioca.
AS PRIMEIRAS TELEVISÕES
O Auto Posto Mercadante, na Praça Afonso Pena, que também vendia eletrodomésticos, foi umas das lojas precursoras na venda da grande novidade dos anos 1950, a televisão, que era também vendida na Revendedora Salim Simão, na esquina da Rua Humaitá com a Avenida Dr. João Guilhermino. As poucas televisões eram vendidas no inovador sistema à prazo.
O BAR DA MELHOR SOCIEDADE
O Bar Paulistano, na esquina da Rua XV de Novembro com a Rua Sebastião Hummel, foi um dos mais importantes bares e restaurantes da cidade e onde se reuniam famílias e também os políticos, após as sessões da Câmara Municipal.
MOVIMENTO À NOITE
Principalmente até os anos 1960, o centro da cidade tinha movimento de pedestres até, geralmente, 11 horas da noite, mas era fácil encontrar notívagos.
O footing , de uma maneira natural, cessava em torno das 10 horas da noite. Mas, havia muita gente que ia ao Bar e Restaurante Santa Helena comer sua tradicional pizza, ao Bar XV e ao Bar Lincoln, além de outros pequenos bares na avenida e na Praça da Matriz.
CINEMA
Os cinemas, primeiro o Cine Paratodos, e depois o Cine Palácio, que o substituiu como o melhor cinema da cidade, movimentavam o centro, com filmes, shows, posses de prefeitos e festas de formatura, em um tempo em que estacionar o carro no centro era fácil, estacionando-o na rua mesmo. Não havia estacionamentos particulares, e não havia necessidade deles.
VIDA
O centro da cidade tinha vida à noite, enquanto havia os bares e restaurantes (havia também a Cantina Bella Venezia e a Cantina do Mário, que ficava na Praça Afonso pena), os cinemas e o Shopping Centro (inaugurado na segunda metade da década de 1970), que deu nova dinâmica à questão do consumo e compras com tranqüilidade, sem possibilidades de chuvas ou sol forte, mas sem opções como um local de lazer dos usuários.
O ESVAZIAMENTO DO CENTRO
Com o Plano Diretor do Município, implantado a partir do início da década de 1970, o comércio do centro começou a se expandir em direção à Vila AdyAna, a contragosto dos comerciantes estabelecidos no centro, que não acreditavam que essa dispersão viesse beneficiar o comércio de uma maneira geral.
CHEGAM AS GRANDES LOJAS
A instalação de duas grandes redes de supermercados de renome nacional, um na Rua Antonio Saes, e o outro na Avenida Dr. Nelson D’Ávila, próximo ao trevo do CTA, na década de 1970, começou a deslocar as compras de alimentos feitas em pequenos supermercados localizados no centro, e no mercado municipal. Era mais um fator que ajudava a esvaziar o centro.
O NOVO SHOPPING
Com a instalação do CenterVale Shopping, em 1987, na área onde antes estava a fábrica da Ericsson do Brasil, houve uma mudança de grande vulto na concepção de compras ligadas a comodidade e lazer, e o centro da cidade continuava a deixar de ser um espaço de compras e lazer.
A VERTICALIZAÇÃO
Foi iniciada, ao mesmo tempo, a verticalização da cidade, e sua expansão para as zonas sul, leste e oeste, e moradores do centro começaram a deixar suas casas, muitas delas construções antigas, do início do século 20, sem garagens, em um tempo em que não havia muitos veículos, pois, a popularização do carro se iniciou na segunda metade dos anos 1950, com a implantação da indústria automobilística no Brasil e com as facilidades de financiamento de crédito para sua compra.
CASAS COM JARDINS E POMARES
A Rua 7 de Setembro, que tinha pontos comerciais, mas principalmente muitas casas com jardins na frente e/ou pomar atrás, começava a deixar de ter residências, pois, após reformas que modificavam suas fachadas, passavam a ser pontos comerciais. Na década de 1970, o projeto e a concretização da rua como Calçadão para compras e passeio, deu uma nova e marcante característica para o centro da cidade.
Ainda nos dias de hoje, à exceção da Rua XV de Novembro e Rua 7 de Setembro, o centro da cidade tem moradores, e muitos deles não têm carros, enquanto outros pagam por estacionamentos particulares.
O CENTRO DA CIDADE NOS TEMPOS DE HOJE
O centro da cidade, apesar de não ser esteticamente atraente no seu todo, mas ter atrações pontuais bem conservadas, com valor arquitetônico e histórico (pátio com a Igreja de São Benedito, prédio do Centro Cultural Mário Covas, prédio da Biblioteca Pública Cassiano Ricardo, prédio da Igreja Matriz), ainda é um coração fortemente pulsante durante o dia, com seu movimento bancário e comércio de bens utilitários e outros de natureza popular, mas que carece de brilho, utilidade e segurança à noite.
Augusto Dias é escritor, jornalista, advogado,
professor, Cidadão Joseense e
ocupante da cadeira nº 14 da Academia Joseense de Letras.