2012,mar

O Circo Ora Bolas

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10 de Dezembro é o Dia Internacional do Palhaço. Passou a ser comemorado em São José dos Campos a partir de 2011. E palhaço lembra circo. O inesquecível artista e produtor Amacio Mazzaroppi, cujo centenário é comemorado este ano, grande sucesso com os seus filmes em que protagonizava o caipira do Vale do Paraíba, começou no circo. Montou o seu próprio circo que percorreu inúmeras cidades e regiões. Esteve em São José, por volta de 1940, quando instalou o seu circo na região da Vila Maria, onde permaneceu por várias semanas, convivendo com a população joseense e com grande sucesso de público. Uma realização joseense também com início por volta de 1948 e que perdurou pela década de 1950 foi o CIRCO ORA BOLAS. Uma iniciativa de jovens joseenses que se apresentavam como artistas amadores, tanto integrando conjuntos musicais como grupos teatrais.

O CIRCO ORA BOLAS foi um grande sucesso, não só em São José dos Campos como também em Caraguatatuba, onde esses jovens costumavam passar as férias. Conseguiram montar um circo em terreno do Tênis Clube e lá divertiam a população com as suas apresentações cômicas. Edmundo Ferreira Maldos, o Zebu, Fausto Pinotti, Maurício Diamante, Pedrinho e Jaime David, Paulo Saloni, José Wenceslau Palmeira e tantos outros jovens da época participaram do CIRCO ORA BOLAS. Hoje apenas alguns permanecem vivos para contar a história de suas apresentações circenses.

O CIRCO ORA BOLAS foi recriado nas comemorações do Dia do Palhaço em 10 de Dezembro de 2010 não só rememorando um período da história de São José dos Campos como também para oferecer oportunidades para os jovens da atualidade tão ou mais criativos do que aqueles jovens das décadas de 1940 e 1950, que alegravam os salões de festas da cidade. Do CIRCO ORA BOLAS chegaram até mesmo a se apresentar em peças teatrais cômicas no Klaxon Club (depois Esporte Clube São José) na Rua 15 de Novembro (a Rua Direita) e no Tênis Clube e na Associação Esportiva São José (a vermelhinha), e onde mais tivesse um espaço para as palhaçadas que arrancavam o riso da platéia. Respeitável público, o espetáculo do CIRCO ORA BOLAS vai começar!  

 
2012,jan

O CENTRO TÉCNICO DE AERONÁUTICA

Com o objetivo de desenvolver a aviação brasileira, científica e tecnologicamente, para cumprir suas atribuições civis e militares, em meio à IIª Guerra Mundial, o maior conflito da história do mundo, o Presidente Getúlio Vargas, pelo Decreto-Lei nº 2.961, de 20/01/1941, criou o Ministério da Aeronáutica, reunindo as aviações militar e naval, e o Departamento de Aeronáutica Civil.

O TENENTE-CORONEL

Para levar a cabo a tarefa de construção do que seria o futuro Centro Técnico de Aeronáutica, foi indicado o Tenente-Coronel Casimiro Montenegro Filho. Nascido em Fortaleza, foi aspirante de 1929, na primeira turma da então Escola de Aviação Militar no Campo dos Afonsos. Era tenente em 1930, participando ativamente da revolução. Em 12/06/1931, junto com Nelson Freire Lavanère-Wanderley, fez o primeiro voo do então Correio Militar, do Rio de Janeiro a São Paulo, que durou 4 horas, e com ausência total de auxílio à navegação. Em 1932, passou a revolução preso em São Paulo. De 1931 a 1938, comandou o Núcleo do 2º Regimento de Aviação no Campo de Marte, em São Paulo. Graduou-se em engenharia aeronáutica em 1941, pela Escola Técnica do Exército, no Rio de Janeiro.

COMO CRIAR UM CENTRO TÉCNICO

Para conhecer outros centros, o Tenente-Coronel esteve na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde na sua segunda visita, fez contato com o professor Richard Harbert Smith, chefe do Departamento de Aeronáutica do MIT (Massachusetts Institute of Technology), por intermédio do Major-Aviador Oswaldo do Nascimento Leal, que morava em Boston, sede do MIT, onde fazia o curso de mestrado em engenharia aeronáutica.

O MODELO

Na mesma segunda viagem, o Tenente-Coronel visitou WRIGHT FIELD, em Dayton, Estado de Ohio, uma grande unidade de operação tipicamente militar, exclusiva da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos da América, de caráter técnico normativo, e ensaios e controle de produtos e material fornecido à Força Aérea, o centro técnico no qual se basearia para a construção do C.T.A., com a escola de engenharia, o I.T.A., Instituto Tecnológico de Aeronáutica, e o I.P.D., Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento. O passo seguinte foi a elaboração do PLANO GERAL DE CRIAÇÃO DO CENTRO TÉCNICO DE AERONÁUTICA, que deveria ser levado à apreciação do Presidente da República do Brasil.

A APROVAÇÃO

No dia 16/11/1945, o Presidente-Interino da República, na Exposição de Motivos G.S. – 20, aprovou o Plano Geral de Criação do Centro Técnico de Aeronáutica, e no dia 20/1/1946, o Ministro da Aeronáutica assinou a Portaria M. Aer. nº 39, criando a COMISSÃO DE ORGANIZAÇÃO DO CENTRO TÉCNICO DE AERONÁUTICA (C.O.C.T.A.).

A NOMEAÇÃO

No dia 13/3/1947, a Portaria nº 68 do Ministério da Aeronáutica nomeava o Tenente-Coronel Casimiro Montenegro Filho para chefiar a C.O.C.T.A.

Uma de suas primeiras tarefas seria a escolha da cidade onde deveria ser instalado o centro tecnológico de aeronáutica mais avançado do país.

 

 

 

                              AUGUSTO DIAS é escritor, jornalista, advogado,

professor, Cidadão Joseense e

ocupante da cadeira nº 14 da Academia Joseense de Letras.

 

 
2011,dez

O Sergipano

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        Aos 81 anos de idade, Sergipano, o Domingos da Silva, no último dia 12 de novembro,“viajou fora do combinado” como diz Rolando Boldrin, vítima de um infarto fulminante. A cidade guarda bem viva a memória do Bloco do Boi Duvidoso que Sergipano criou para animar o carnaval de rua de São José. Nas décadas de 1960 e 1970, a cidade deixou de ter carnaval financiado pela prefeitura. Porém o filho do casal Sebastião Marques e Maria Umbilina da Silva, nascido em Porto da Folha, em Sergipe, no dia 12 de maio de 1930, deixou os seus 27 irmãos e irmãs e com 13 anos de idade veio para S. Paulo. Não encontrando trabalho na capital paulista foi plantar algodão na região de Presidente Prudente, nas Fazendas Formiga e Nova Damasco.

Depois fixou-se em Cubatão, onde foi carpinteiro por cinco anos, quando comprou um bar. Maria Judite Rezende viajou para visitar o irmão e acabou casando com Domingos da Silva em 1959. E em 1961 o casal veio residir em São José onde abriu o seu bar na Praça do Expedicionário, praça da rodoviária urbana construída na década de 1970. E mora até hoje num sobrado que construiu no número 50. Era chamado de baiano. E para não ter que ficar explicando a todo instante que era sergipano, denominou o seu estabelecimento comercial de Bar do Sergipano.

Trazia para São José não só o Bar do Sergipano mais também as lembranças do Sergipe. A irmã Maria da Virgem, esposa de Mane Lameu, teve o filho Neco Caburanga enforcado supostamente pela volante, a força militar que perseguia os cangaceiros de Lampião na região de Angico. Os seus irmãos Zabelê (Manuel Marques da Silva) e Correnteza (Joaquim Marques da Silva) foram para o cangaço.

Em sua memória de menino as manifestações populares do Reizado, Marujada, Cacumbi, Bumba Meu Boi, nas quais as pessoas saiam fantasiadas no meio da cidade tocando, cantando, dançando e brincando com os foliões.

Para resgatar a lembrança de sua infância, aqui criou em 1962 um bloco fantasiado de boi, girafa e outros animais, que saia pelo centro da cidade nos dias de carnaval. E ele era o Rei Momo. Como o boi era de fantasia e não real, denominou a manifestação de Bloco do Boi Duvidoso. E sem qualquer apoio oficial manteve o bloco carnavalesco até 1976.

Em 1979 passou a integrar a Escola de Samba Martim Cererê, quando o carnaval voltou a ser uma festa financiada pela prefeitura. As suas últimas participações no carnaval de rua de São José aconteceram no Bloco Carnavalesco Engole Sapo, nos primeiros anos de sua aparição em 1991, criado pelo médico Faustino Nelson D’Ávila e um grupo de amigos. Agora Sergipano certamente reencontrou os velhos amigos de carnaval e estará organizando a folia lá no céu. 

Luiz Paulo Costa é jornalista em São José dos Campos, a quem Sergipano concedeu em 2010 uma entrevista para o jornal do Bloco Carnavalesco Engole Sapo, que o homenageou.

 
2011,dez

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS TORNA-SE ESTÂNCIA CLIMATÉRICA

O Doutor Ruy Rodrigues Doria, médico-tisiólogo e um dos mais importantes homens públicos do município, foi o principal líder que viria fazer com que São José dos Campos se transformasse em Estância Climatérica em 12/03/1935 e usufruísse de todos os benefícios de ordem política e financeira advindos dessa condição.

O GOVERNO DA ESTÂNCIA CLIMATÉRICA E HIDROMINERAL

São José dos Campos passou a ser administrada por um prefeito-sanitário nomeado pelo Governador do Estado, ficando subordinado ao Departamento de Administração Municipal, órgão do Estado. Além disso, foi constituído um Conselho Consultivo composto de 5 membros, também nomeados pelo Governo, fazendo parte dele, pelo menos 3 moradores do município.

NOMEAÇÃO E DEMISSÃO DO PREFEITO-SANITÁRIO

Dessa maneira, o prefeito de São José dos Campos era livremente nomeado e demitido pelo Governador do Estado, sendo somente a Câmara Municipal eleita pelo voto popular. Na prática, havia prefeitos que ficavam no cargo somente alguns meses ou alguns anos, sem tempo de mandato definido.

O GOLPE DE ESTADO

No dia 10 de novembro de 1937, com o pretexto de os comunistas estarem planejando uma nova revolução, Getúlio Vargas, com o apoio das Forças Armadas, sem maiores dificuldades e sem resistência, dá um golpe, fechando os edifícios da Câmara e do Senado, instaurando o Estado Novo, sob uma nova Constituição, extinguindo os partidos políticos no Brasil, vindo os Estados a ser governados por interventores.

O FIM DO GOVERNO DITATORIAL

Somente em 28/2/1945, pressionado pela profunda contradição entre o alinhamento do Brasil com os Aliados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em luta na Europa contra os regimes totalitários e o fato do Brasil ter, ele próprio, um governo ditatorial, o Presidente promoveu uma reforma constitucional.

ELEIÇÕES LIVRES

A reforma constitucional regulamentou as eleições para a presidência da república, os governos estaduais, o Congresso Nacional e as assembléias legislativas. Em 2/12/1945 foram realizadas eleições, sendo eleito presidente o General Eurico Gaspar Dutra. E, em 18/9/1946, com a promulgação da quinta Constituição da história do país, e a quarta da República, foram realizadas eleições para todos os níveis.

ELEIÇÕES EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

No dia 9/11/1947, foram realizadas eleições para a Câmara Municipal, e os 19 vereadores eleitos foram empossados no dia 1/1/1948, no Salão Nobre do Ginásio do Estado, na Praça Afonso Pena, onde está, atualmente, o Centro Cultural Mário Covas. O primeiro presidente da Câmara Municipal, após o fim do período ditatorial, foi o Doutor João Baptista de Souza Soares.

NÃO HOUVE ELEIÇÃO PARA PREFEITO

Não houve eleição para Prefeito, pois São José dos Campos não tinha autonomia política. Prevalecia sua condição de Estância Climatérica e Hidromineral, e o ocupante do cargo ser, portanto, de livre escolha do Governador do Estado.

A CIDADE CONTINUAVA SEM AUTONOMIA POLÍTICA

No dia 18/9/1947, o Interventor no Estado de São Paulo, Adhemar Pereira de Barros sancionando a Lei Orgânica dos Municípios, que havia sido aprovada pela Assembléia Legislativa do Estado, confirmou a condição de São José dos Campos como Estância Climatérica e Hidromineral, conforme seu Artigo 2º e parágrafo único.

A LUTA PELA AUTONOMIA POLÍTICA

Entretanto, as novas tendências liberais democráticas fortaleceram a classe política e a imprensa, que defendiam a liberdade de escolha do prefeito pelo voto dos eleitores. COMEÇAVA A DIFÍCIL LUTA PELA AUTONOMIA POLÍTICA PLENA DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS.

Augusto Dias é escritor,

 jornalista, advogado, professor,

Cidadão Joseense e ocupante da cadeira nº 14 da Academia Joseense de Letras.

 
2011,nov

Para um joseense a principal marca da cidade é o Banhado. Quando criança eu cheguei a vê-lo cheio d’água, como uma imensa lagoa, numa das lembranças mais bonitas que tenho desses tempos. A criançada descia pelas encostas escorregando num papelão, o trânsito de veículos na avenida São José era pouco, o Cine Teatro funcionava para a alegria de tantos. Quase toda a região era uma mistura de residências e comércio, as pessoas se conheciam e se conversam.

Um dia lá pelos anos 60, um ‘tremor de terra’ que sentimos em casa, pois morava na av. São José numa antiga casa que tinha sido os Correios da cidade, levou parte da encosta do Banhado e soterrou a linha do trem. O lugar virou ponto de visitação obrigatório e me lembro que meus tios temiam que o Banhado crescesse até chegar nas casas, que seriam engolidas pelo buraco.

Com o tempo o Banhado foi secando. A imensidão de sapos e vagalumes que existiam ali sumiram. Uma favela tomou conta do lugar e com ela, marginais e o medo. Até mesmo as fotos que eram tiradas pelas famílias na beira do Banhado foram escasseando, o lugar que era só beleza se tornou também sinônimo de perigo. Os passeios noturnos deixaram de existir.

Minha infância foi passada no centro da cidade, com a vista do Banhado ora cheio de água ora cheio de nuvens, como seu o céu viesse visitá-lo no inverno. Quanto mistério e histórias foram criadas e guardadas neste imenso lugar, histórias como as de minha infância e de milhares de outros joseenses.

Júlio Ottoboni

 
2011,out

OS PRIMÓRDIOS DA ESTÂNCIA CLIMATÉRICA E HIDROMINERAL

A proclamada salubridade do clima de São José dos Campos, que já recebia tuberculosos desde o final do século XIX, sempre foi creditada às suas condições topográficas e à sua situação colocada sobre um vasto planalto entre duas grandes cordilheiras, ricas de vegetação, uma ao sul e outra ao norte.

OS TUBERCULOSOS VÊM DE FORA

Na verdade, o clima de São José dos Campos não diferia do clima de cidades próximas, sendo aqui constituído um centro de tratamento da tuberculose com o Doutor Mário Galvão, que também havia vindo para cá para se tratar. O privilégio de São José dos Campos como estância curativa era devido à existência de uma anomalia local na camada ionosférica, causa da alta incidência de raios ultravioleta sobre a estância climatérica, agindo essa radiação como esterilização do ambiente.

A EVOLUÇÃO SANATORIAL

A crescente procura pelos ares generosos de São José dos Campos, no início do século XX cria uma nova ordem social e econômica com a abertura de pensões para os doentes, consultórios e clínicas especializadas, farmácias, sanatórios, hotéis e também ocorre formação de mão de obra especializada.

TUBERCULOSOS SE DESTACAM

Entre os muitos doentes que para cá vinham, uns com recursos financeiros, outros carentes, vieram médicos que, além da busca da sua cura, aqui estabeleceram suas clínicas, exercendo também intensa e importante participação na vida social e política da cidade.

DESEQUILÍBRIOS

O fluxo migratório provocou desequilíbrios na vida da cidade, desaparelhada no seu equipamento público e sem condições econômicas para suprir a demanda que começava a mudar o núcleo urbano, não só no seu aspecto físico, mas também no comportamental, uma vez que o tuberculoso era estigmatizado, e que, mesmo tendo uma convivência harmoniosa com os não-doentes, era tratado com restrições.

A INDUSTRIALIZAÇÃO

Ao mesmo tempo que o ciclo sanatorial se desenvolvia, a industrialização, ainda incipiente, pouco exigia do aparelhamento público nas primeiras décadas do século XX, vindo, pelo contrário, a contribuir com postos de trabalho, o que provocou êxodo rural, e deu nova dinâmica à vida comercial da cidade sanatorial.

A DÉCADA DE 1930

Os anos 1930 se iniciaram com o fim da República Velha, período no qual as instituições do Estado liberal repousavam sobre o sistema de alianças políticas, entre as oligarquias cafeeiras de São Paulo e os produtores rurais de Minas Gerais, e o início de uma nova fase na história brasileira, na qual um sistema político autoritário, liderado por Getúlio Vargas, viria a dar prosseguimento a um processo de industrialização em escala nacional e redefinir as relações entre Estado e sociedade.

A NOVA ORDEM POLÍTICA

As câmaras legislativas federais, estaduais e municipais seriam dissolvidas. Para superar as pressões regionais, o novo governo, com o objetivo de implementar suas decisões, montou um aparato burocrático administrativo, escolhendo e nomeando, arbitrariamente, os interventores de confiança do Presidente.

A ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL

Em dezembro de 1930 começavam as atividades do Departamento de Administração Municipal, órgão da Secretaria do Interior do Governo do Estado, que em 1935 foi substituído pelo Departamento das Municipalidades. O órgão tinha poderes para nomear e exonerar prefeitos, além de interferir em questões de qualquer natureza do município.

29 DE OUTUBRO DE 1930

No dia 29 de outubro de 1930, assumiu a administração de São José dos Campos, a Junta Governativa Provisória formada por Arnaldo dos Santos Cerdeira e Austin Tibiriçá. Em 20 de dezembro de 1931, o Dr. Ruy Rodrigues Dória assumia a Prefeitura Municipal.

A CRIAÇÃO DA ESTÂNCIA

As mais representativas lideranças políticas joseenses, os médicos, principalmente, desejavam a mudança para Prefeitura Sanitária, com respaldo na Constituição Paulista de 1921, que regulava a criação de estâncias climatéricas, o que possibilitaria que as rendas constituídas por impostos e taxas permanecessem na estância.

O DESTINO DOS IMPOSTOS

Com isso, a Coletoria Estadual seria extinta e as rendas municipais seriam destinadas à manutenção da administração e as estaduais seriam utilizadas no equipamento público, dotando a estância de hospitais populares, casas de cura e repouso, ambulatórios e demais serviços técnicos especializados, fiscalizando hotéis e casas de pensão e orientando novas construções.

A ESTÂNCIA CLIMATÉRICA DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

As pressões políticas dos médicos-tisiólogos, e a sintonia com o Governo do Estado, levaram o Interventor Federal no Estado de São Paulo, Dr. Armando de Salles Oliveira, a criar a ESTÂNCIA CLIMATÉRICA DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS em 12/03/1935

Augusto Dias é escritor, jornalista,

advogado, professor,

Cidadão Joseense e ocupante da cadeira nº 14 da Academia Joseense de Letras.

 
2011,out

    O transcurso dos 189 anos do Dia da Independência do Brasil, a emancipação política do país no início do século XIX, foi comemorado festivamente pelo CLUBE DE JOSEENSES E AMIGOS. Oficialmente, a data comemorada é a de 7 de setembro de 1822, em que ocorreu o chamado “Grito do Ipiranga”, às margens do riacho Ipiranga em S. Paulo. Em agosto de 1821 começaram a se realizar na vila joseense várias reuniões secretas na casa de Venâncio José Leme, segundo o Álbum de S. José dos Campos de João Netto Caldeira de 1934. Ofício da Câmara de São José enviado ao Príncipe D. Pedro relatou que naquelas reuniões eram lidos artigos do Cônego Sampaio e de Gonçalves Ledo do jornal “O Reverbero”.

A 10 de Setembro de 1822 a Câmara reuniu-se e festejou a data com a iluminação de todas as casas, por meio de archotes, “também sendo engalanado o paço municipal”. O presidente da Província, Francisco Antonio de Barros, permitiu que se disparassem os arcabuses e outras armas de fogo. Realizando-se a 1º de dezembro de 1822 a sagração de S. Majestade o Imperador, a vila de São José foi representada neste ato por Venâncio José Leme, José Vicente Ferreira e Ignácio Ricardo de Brito.

Em sessão de 14/02/1824, a Câmara delegou poderes aos srs. Ten General Manoel Martins do Couto Reys, Desembargador Antonio Rodrigues Velloso de Oliveira e João Maria d’Azevedo Chichorro para, em nome da vila de São José do Parahyba, jurarem a Constituição na Côrte Imperial. Cumprida a missão, a municipalidade convocou o povo para sessão solene, realizada a 12/04/1824, na qual foi jurada a Carta Magna do Império do Brasil. A ata respectiva foi subscrita por 277 pessoas.

Marcou época em S. José dos Campos a comemoração do Centenário do Dia da Independência em 1922. Inaugurou-se o monumento (foto) em frente ao Grupo Escolar Olímpio Catão, que até hoje ostenta o Grito do Ipiranga: Independência ou Morte! Quem passa pelo local onde se encontra o monumento chega a pensar tratar-se do busto da Vênus de Milo, mas não, é o símbolo da Independência no transcurso de seu centenário.

Luíz Paulo Costa

 
2011,out

Meu avô materno, Euclides Bernardes Ferreira ( na verdade Guimarães, pois houve uma troca de sobrenome em Pouso Alto (MG), que forçou a família ir para São José do Barreiro e mais tarde para São José dos Campos, onde ele nasceu) era um contador de histórias. Tinha uma memória fabulosa e eu como seu primeiro neto, era o preferido para escutá-las. Eram horas sentados nos bancos de madeira que ele fazia em casa a me contar como era a cidade, de seu trabalho na bolsa de café em Taubaté, de quando tinha que ir para São Paulo e de sua passagem pelo Exército.

Meu avô me faz muita falta, tanto por suas histórias como por seu carinho e presença. Ele morreu há quase 30 anos e está sepultado no cemitério do centro. Me deixou o legado de suas historia sobre sua vida, sobre os detalhes de cada passagem, de como a boiada passava no centro da cidade, de como era sua olaria Santa Júlia, no Alto da Ponte, de seus primos Cunha Lara de Caçapava, de sua tia Sinhá, e seus irmãos e amigos.

Ele me contava com saudosismo do tempo que o banhado enchia com as águas do Paraíba do Sul, da balsa que ele tinha que atravessar ( a mesma que o poeta Cassiano Ricardo citou em seu poema A Flauta Que Me Roubaram) quando as cheias levavam a ponte de madeira em Santana. De seus conhecidos que morreram nas enchentes, das perdas que teve pelas águas do nosso rio sagrado.

Devoto de Nossa Senhora Aparecida, meu avô tinha um quadrinho muito velho com a estampa da Santa. Ele jurava que era milagrosa e já tinha curado tanto ele como meus tios de enfermidades. Nunca vou me esquecer do tempo que ele, já muito velhinho, levava para dobrar o Estadão para ler as notícias. E depois guardavam o jornal para forrar seus sapatos, muitas vezes para tapar os buracos do solado já gasto pelo tempo.

Era me contou sobre a Revolução de 32 e do orgulho que tinha em ser paulista, apesar de ser primo do ex-presidente mineiro Artur Bernardes. Me ensinou a gostar e tratar dos cachorrinhos que eu tinha, de dar banho nos bichinhos e implicava muito se eu ou minha irmã tomássemos banhos depois da uma hora. Para ele aquilo era um atentado contra a saúde.

A vida me levou meu avô, mas não sua lembrança e suas histórias. Elas estão vivas em minha vida como parte de tudo que aprendi a chamar de São José dos Campos.

Júlio Ottoboni

( Júlio Marcos Candelária Bernardes Ottoboni – meu nome de registro e batismo)

 
2011,set

O CORAÇÃO DA CIDADE

O planalto que constitui o local que deu origem a São José dos Campos, foi o coração da cidade, desde seus inícios com a fazenda de gado administrada por padres jesuítas, doações de sesmarias, constituição da Aldeia e Vila, até os anos 1970.

AS RUAS PRINCIPAIS

Na Rua de Trás (Avenida São José), Rua Direita (Rua XV de Novembro), Rua do Fogo (Rua 7 de Setembro), Rua do Mercado (Rua Siqueira Campos), Rua do Cemitério(ruas Antonio Saes e Francisco Rafael), Jardim da Preguiça (Praça Cônego Lima), Rua do Teatro (Rua Sebastião Hummel), Largo da Cadeia (Praça Afonso Pena) e no Largo da Matriz (Praça Padre João Guimarães), sempre estiveram, até então, os melhores equipamentos públicos, o poder público nos seus 3 níveis, as escolas, os médicos, os dentistas, o comércio, os serviços e pequenas indústrias (Malharia Alzira, que se instalou na Rua 7 de Setembro, nº 42, na segunda metade dos anos 1920), os bancos, o Theatro, que nos seus tempos iniciais vivia a transição teatro/cinema (prédio na esquina da Rua XV de Novembro com a Rua Sebastião Hummel, que viria a ser ocupado pela Prefeitura e Câmara Municipal, e depois pela Biblioteca Pública Cassiano Ricardo), o hospital, o cemitério, sedes sociais da Associação Esportiva São José, Tenis Clube de São José dos Campos e Esporte Clube São José, o ponto de ônibus urbanos na Praça da Matriz e o ponto de ônibus intermunicipal que ficava, inicialmente, em frente ao Bar XV, próximo à Praça da Matriz e depois na Avenida São José, próximo à igreja.

CORSOS E QUERMESSES

Principalmente na Praça Afonso Pena, Rua XV de Novembro e Praça da Matriz, aconteciam os desfiles das datas cívicas, os de aberturas de jogos regionais, os corsos, depois os desfiles de blocos carnavalescos, as quermesses e os comícios políticos.

O FOOTING

Costume antigo que acontecia nos finais de semana, o footing era o percurso pela Rua XV de Novembro, entre a Rua Rubião Junior e a Praça da Matriz e se realizava logo após a saída do cinema (Cine Paratodos, na Rua Cel Monteiro, e depois Cine Palácio, na Praça Afonso Pena).

CENTRO DE COMPRAS

O mercado municipal era um grande centro de compras para onde acorriam moradores da cidade e da zona rural, principalmente aos domingos.

A Padaria Vulcão, na Rua 7 de Setembro, ao lado do mercado municipal, era a mais renomada da cidade.

A Casa Diamante, na Rua XV de Novembro, próximo à Praça Cônego Lima, tinha um comércio generalizado de bens e era uma loja conceituada, somando-se a outras lojas na mesma rua, e às lojas da Rua Siqueira Campos, muitas de propriedade de libaneses, como a Casa Confiança, a Casa São Jorge, e como eram tempos em que o homem ainda usava chapéu, havia a Chapelaria Carioca.

AS PRIMEIRAS TELEVISÕES

O Auto Posto Mercadante, na Praça Afonso Pena, que também vendia eletrodomésticos, foi umas das lojas precursoras na venda da grande novidade dos anos 1950, a televisão, que era também vendida na Revendedora Salim Simão, na esquina da Rua Humaitá com a Avenida Dr. João Guilhermino. As poucas televisões eram vendidas no inovador sistema à prazo.

O BAR DA MELHOR SOCIEDADE

O Bar Paulistano, na esquina da Rua XV de Novembro com a Rua Sebastião Hummel, foi um dos mais importantes bares e restaurantes da cidade e onde se reuniam famílias e também os políticos, após as sessões da Câmara Municipal.

MOVIMENTO À NOITE

Principalmente até os anos 1960, o centro da cidade tinha movimento de pedestres até, geralmente, 11 horas da noite, mas era fácil encontrar notívagos.

O footing , de uma maneira natural, cessava em torno das 10 horas da noite. Mas, havia muita gente que ia ao Bar e Restaurante Santa Helena comer sua tradicional pizza, ao Bar XV e ao Bar Lincoln, além de outros pequenos bares na avenida e na Praça da Matriz.

CINEMA

Os cinemas, primeiro o Cine Paratodos, e depois o Cine Palácio, que o substituiu como o melhor cinema da cidade, movimentavam o centro, com filmes, shows, posses de prefeitos e festas de formatura, em um tempo em que estacionar o carro no centro era fácil, estacionando-o na rua mesmo. Não havia estacionamentos particulares, e não havia necessidade deles.

VIDA

O centro da cidade tinha vida à noite, enquanto havia os bares e restaurantes (havia também a Cantina Bella Venezia e a Cantina do Mário, que ficava na Praça Afonso pena), os cinemas e o Shopping Centro (inaugurado na segunda metade da década de 1970), que deu nova dinâmica à questão do consumo e compras com tranqüilidade, sem possibilidades de chuvas ou sol forte, mas sem opções como um local de lazer dos usuários.

O ESVAZIAMENTO DO CENTRO

Com o Plano Diretor do Município, implantado a partir do início da década de 1970, o comércio do centro começou a se expandir em direção à Vila AdyAna, a contragosto dos comerciantes estabelecidos no centro, que não acreditavam que essa dispersão viesse beneficiar o comércio de uma maneira geral.

CHEGAM AS GRANDES LOJAS

A instalação de duas grandes redes de supermercados de renome nacional, um na Rua Antonio Saes, e o outro na Avenida Dr. Nelson D’Ávila, próximo ao trevo do CTA, na década de 1970, começou a deslocar as compras de alimentos feitas em pequenos supermercados localizados no centro, e no mercado municipal. Era mais um fator que ajudava a esvaziar o centro.

O NOVO SHOPPING

Com a instalação do CenterVale Shopping, em 1987, na área onde antes estava a fábrica da Ericsson do Brasil, houve uma mudança de grande vulto na concepção de compras ligadas a comodidade e lazer, e o centro da cidade continuava a deixar de ser um espaço de compras e lazer.

A VERTICALIZAÇÃO

Foi iniciada, ao mesmo tempo, a verticalização da cidade, e sua expansão para as zonas sul, leste e oeste, e moradores do centro começaram a deixar suas casas, muitas delas construções antigas, do início do século 20, sem garagens, em um tempo em que não havia muitos veículos, pois, a popularização do carro se iniciou na segunda metade dos anos 1950, com a implantação da indústria automobilística no Brasil e com as facilidades de financiamento de crédito para sua compra.

CASAS COM JARDINS E POMARES

A Rua 7 de Setembro, que tinha pontos comerciais, mas principalmente muitas casas com jardins na frente e/ou pomar atrás, começava a deixar de ter residências, pois, após reformas que modificavam suas fachadas, passavam a ser pontos comerciais. Na década de 1970, o projeto e a concretização da rua como Calçadão para compras e passeio, deu uma nova e marcante característica para o centro da cidade.

Ainda nos dias de hoje, à exceção da Rua XV de Novembro e Rua 7 de Setembro, o centro da cidade tem moradores, e muitos deles não têm carros, enquanto outros pagam por estacionamentos particulares.

O CENTRO DA CIDADE NOS TEMPOS DE HOJE

O centro da cidade, apesar de não ser esteticamente atraente no seu todo, mas ter atrações pontuais bem conservadas, com valor arquitetônico e histórico (pátio com a Igreja de São Benedito, prédio do Centro Cultural Mário Covas, prédio da Biblioteca Pública Cassiano Ricardo, prédio da Igreja Matriz), ainda é um coração fortemente pulsante durante o dia, com seu movimento bancário e comércio de bens utilitários e outros de natureza popular, mas que carece de brilho, utilidade e segurança à noite.

Augusto Dias é escritor, jornalista, advogado,

professor, Cidadão Joseense e

ocupante da cadeira nº 14 da Academia Joseense de Letras.

 
2011,set

Meus caminhos na infância sempre foram cercados pelas maravilhas que minha visão de criança me proporcionavam da cidade. Aos 5 anos meu pai me deu uma espingardinha de rola, que era armada ao ser dobrada no meio. Era toda de metal cromada, muito bonita. Eu e a minha irmã, um ano mais nova e que ganhou um boneco marinheiro, fomos para a beira do banhado tirar fotos. O fotógrafo era o Careca, que registrou grande parte das famílias joseenses nos anos 60 e 70.

Me lembro que prendi o dedo na armação da espingardinha e chorei muito de dor. Minha tia, minha mãe tentavam me consolar com assopros, a rezinha de Santa Luzia e passar a mão sobre a ferida, mas nada de dar certo. Doía mesmo e o Careca foi fotografando meu choro de criança, de tristeza e dor, pois não conseguia mais atirar com a espingardinha de rola. Anos mais tarde encontrei essas fotos e me recordei daquele dia, de cada detalhe.

Minha família morava na Avenida São José, numa casa que foi de minha avó, Benedita Ortiz Candelária. Era uma casa simples, de meio lote e um pequeno quintal, onde eu tinha uma pata de olho azul. Ao lado ficava a ‘ casa velha’, um casarão que minha avó herdara de seu pai, e hoje ambas residências se transformaram num estacionamento. Poucos metros a diante tinha o Cine Teatro São José – que hoje querem destruir.

Quantas vezes eu sai dali, muitas vezes vestido com um chapéu de feltro vermelho no estilo cowboy e com um revólver na cinta, e ia com minha avó paterna, Maria Ottoboni, de charrete para o mercado municipal. O gostoso era ir de charrete descoberta, pois me sentia como nos filmes do velho oeste norte-americano. Chegava a tirar o revolver de atirar nos índios imaginários. Depois das compras, eu pedia para minha avó retornar de charrete, pois o ponto era ao lado do mercado e eu gostava de escolher o cavalo mais bonito, de preferência branco.

Eram sonhos de menino, de uma infância feliz e cheia de fantasia. De uma cidade pequena, modesta, mas acolhedora, que lhe ensinava sobretudo a ser criança, a chorar e sorrir conforme o momento, sem nenhum medo que ultrapassasse o temor dos loucos que viviam no centro, do ‘homem do saco’, ‘ da Maria regimento’ ou das assombrações das histórias contatadas pelos meus tios. Naquele tempo não havia risco de destruírem a cidade para dar espaço somente uma economia de mercado, dinheiro era importante, mas não era a força motriz de nossas vidas. Éramos realmente uma cidade onde o passado fazia parte integral do presente de cada um dos joseenses!! E que saudade que isto me traz…

Julio Ottoboni

 

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