Com a camisa número sete do E.C. Taubaté, no fim da partida diante do Barretos, o atacante Gilsinho foi substituído. O Burro da Central vencia por 2×0 e respirava aliviado, adeus rebaixamento, algo tão presente nesta temporada. O garoto criado no bairro do “Monjolinho” foi aplaudido de pé por cerca de mil torcedores que enfrentaram o péssimo horário das 10h da manhã de domingo e sol escaldante. Um gol e uma assistência perfeita, de um jogador que aos 34 anos, foi dado por muitos (até por alguns amigos) acabado para o futebol, depois da segunda contusão na mesma temporada em Limeira.
Gilsinho foi guerreiro desde sempre. Certa vez, me contou que aos seis anos de idade, quebrou um rádio ao ouvir seu time do coração (Corinthians) perder um jogo. Para quem convive, sabe que ele não gosta de perder nem partida de truco em churrasco de família. Em uma de suas primeiras partidas como profissional (se não foi a primeira, alô Bruno Lemes), em Bebedouro, no Paulista da série A-3 de 97, o Taubaté perdia para a Internacional por 2×0, faltando pouco mais de 10 minutos para o fim do jogo, o Alviazul ainda não tinha visto a cor da bola, presente no estádio, a torcida taubateana pediu Gilsinho (que já era destaque na categoria sub 20 nos anos anteriores), segundo próprio, o treinador Marcio Coca, olhou para ele no banco e disse, “estão te pedindo, vai lá garoto, vê se faz alguma coisa…” Gilsinho deu duas assistências e iniciou a jogada do terceiro gol e fez aproximadamente 50 malucos torcedores explodirem de felicidade na calorenta cidade do norte do estado.
O atacante, que jogou de meio campista, lateral, deu o sangue e brilhou não só com a camisa do Taubaté. No começo da década passada, foi ídolo também em Sorocaba, defendendo o São Bento, onde também foi artilheiro.
Ídolo em Taubaté, Sorocaba e Wuhan!
Gilsinho em 2005 foi para China, onde ficou por muitos anos. Lá tinha dificuldades de andar nas ruas da mediana cidade de Wuhan (mais de 1 milhão e meio de habitantes), autógrafos e fotos era uma rotina. Chegou a um time recém-promovido, e entrou para história ao levar o pequeno clube (que tinha dois estádios próprios, uma para quarenta e outro, o principal, para oitenta mil pessoas) ao vice-campeonato chinês e a conquista da Copa da China (referente a Copa do Brasil aqui)
Em sua casa, ainda guarda milhares de cartas, cartazes e uma gigante bandeira com seu rosto, presente de seu fã clube chinês.
Nessa época, inclusive, ao lado do meu amigo e jornalista Marlon Maciel Leme (o Perdigueiro), fizemos uma matéria especial quando o jogador veio ao Brasil passar férias, que foi capa do Jornal Contato, ainda em 2006.
Quando voltou ao Brasil em 2009, aos 32 anos, com uma vida financeira tranquila, o jogador poderia e merecia dar um tempo para sua (também guerreira) esposa Juliana, que o acompanhou e o ajudou na China, mas seu coração azul e branco foi mais forte. Gilsinho voltou para um Taubaté que vivia o pior momento da sua história, disputando a última divisão do futebol paulista e ainda se cuidando de uma contusão. A história é recente para quem acompanha o Alviazul, o filho do “Seu Benício”, guerreou, lutou, foi artilheiro do time e fez um dos gols mais importantes da história do Taubaté, aos 53 minutos da segunda etapa, contra o Palestra em um “Joaquinzão” entupido de gente, que valeu a volta da equipe para série A-3.
Quis o destino e alguns árbitros do futebol paulista, que Gilsinho não tivesse mais um acesso no ano passado, quando também foi artilheiro da equipe.
Em tempos de futebol sem identidade, com ídolos forjados em ações de marketing, quando se beijam camisas de clubes, como se beija em uma noite de carnaval, que gosta do futebol em sua essência, hoje lamenta o fim da carreira do último ídolo formado no E.C Taubaté. Gilsinho não foi inventado ou construído, ele se fez, errando, perdendo, vencendo, sendo gente de verdade.
O João Gilberto, certa vez em São Paulo, ao reclamar do ar condicionado de uma casa de shows, acabou vaiado. Gênio, retribuiu as vaias cantarolando “vai de bêbado não vale…” E elogio de amigo, vale?
O pai do Guilherme e das sapequinhas Julia e Melissa, disse que parou.
Será?
Desconfio que guerreiros não param. Até breve meu amigo!



















